
Palavras...ah o que eu poderia fazer com palavras!!!
Hoje eu senti nojo, senti angústia, me senti incompetente e inúltil, braços atados diante de uma situação monstruosa...sim, porque eu quis sair de perto, eu fiz o possível pra fugir, pra não ter que ouvir mais os gritos daquela moradora de rua que apanhava, ali na minha frente, quase jogada aos carros que transitavam rapidamente na avenida...ela apanhava, ela gritava, dizia:
-Eu não fiz nada!!!
eu não fiz nada, eu não fiz nada, eu não fiz nada.....................
não ela não fez nada para estar ali, naquela imundície de santo amaro, ela não fez nada para sentir a barriga DOER de FOME...enquanto os porcos enforcados em gravatas rolam na lama do dinheiro impregnado de suor de quem trabalha e vive ao alento...Ela não fez nada meu Deus!!!
E eu, haha...pateticamente...eu também não fiz nada, eu a vi apanhar, vi quando estava apenas deitada comendo um algo que lhe fora oferecido, provavelmente um resto desprezado por alguém que já tinha a barriga satisfeita...ela estava lá, quieta em seu canto, em meio ao lixo que tantas pessoas com suas vidinhas superiores largaram por lá...ELE chegou, sem mais nem menos, puxou-a pelos cabelos (que horror meu Deus!), Bateu, ela gritou, ele também, e eu, não fiz nada, pedi pra irmos embora logo, meu coração doeu, uma dor que sangrava, eu também tive medo daquele homem...violento, instinto animal, resto de ser humano...As lágrimas naquele momento não rolaram pela minha face, elas se mantiveram presas, presas como a minha voz, presas como o meu medo...rolaram por dentro, grossas , pesadas, desesperadas, havia soluços, havia súplicas em mim. Por quê? por quê? por quê?.........
São Paulo, lixo, sujeira, miséria, dor, FOME...
E o carinha de branco do horário reservado ainda tenta me dizer alguma coisa??????????
cala-te...não digas nada...eu já vi mais do que era preciso....
hoje não existe namastê.
Valéria.